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Os livros e as livrarias físicas: um ciclo sinestésico e antrópico

Atualizado: 5 de abr. de 2022

Se você pudesse definir o livro com uma única palavra, qual seria? Aprendizado, revolução, cultura, paixão... Há uma infinidade de significados subjetivos e, provavelmente, cada pessoa dirá algo diferente, de acordo com a própria opinião e vivência.


Entretanto, apesar das particularidades, há uma definição a qual o livro não escapa: ele é um objeto. Vamos um pouco mais a fundo... Segundo o dicionário Houaiss, um objeto é uma “coisa material que pode ser percebida pelos sentidos”. Essa definição, que em um primeiro momento pode parecer simplista ou genérica, é, na verdade, a representação perfeita do que é um livro.


Um artigo publicado em 2015 por Márcio Souza Gonçalves e Thayz Guimarães para a Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação) evidencia o quanto os livros e os nossos sentidos estão interligados. Este objeto consegue abranger toda a dimensão da sensibilidade humana: a visão, o tato, o olfato, a audição e até mesmo o paladar.


Quando lemos, não são apenas os nossos olhos que trabalham. Com o toque, percebemos a textura das páginas, o acabamento da capa, o peso do livro. Com o olfato, sentimos o cheiro da tinta, do papel e até mesmo do mofo, que conta uma história e que pode trazer memórias à parte. E o som de virar uma página? Sem contar que a leitura também pode ser considerada a representação da fala e, como tal, carrega o som em si, mesmo que indiretamente. Ainda no artigo, os autores citam leitores que, literalmente, sentem o gosto do livro quando cultivam o hábito de umedecer os dedos para virar as páginas!


Percebe como esse contato é intenso? Isso explica tantas sensações genuínas em cada experiência de leitura: é uma verdadeira conexão entre livro e leitor, um despertar entre objeto e corpo. Todo livro é único e capaz de nos tocar profundamente. E essa conexão só aumenta quando pensamos na grandeza de cada conteúdo: literatura, conhecimento, pensamentos delicadamente estruturados, uma sequência singular de palavras e imagens que nos provocam os mais variados sentimentos. São esses pontos que, juntos, fazem com que os livros sejam tão especiais. Quem lê, sente uma afeição genuína por esses objetos.


Mas o valor de um livro não se resume nisso. Além de serem objetos afetivos, os livros também desempenham papéis políticos, sociais, históricos e por aí vai... Eles são reflexos da vida, da sociedade e do mundo ao qual estamos inseridos, ao mesmo tempo que provocam a transformação desse cenário. A leitura é um processo constante de desconstrução, ampliação da consciência e construção de novas perspectivas e realidades – através do impacto que os livros causam em cada indivíduo.


Que tal ampliarmos o debate sobre essa relação entre seres humanos e livros? Pensemos no ciclo desse objeto, na produção... Tudo começa quando a obra é concebida pelo escritor. Nos bastidores, temos os editores, produtores, preparadores, tradutores, capistas, diagramadores, sem contar outros profissionais envolvidos na impressão e nos processos administrativos, financeiros e logísticos, que viabilizam a cadeia produtiva do mercado editorial. Um livro passa por muitas mãos antes de chegar ao leitor, é fruto de várias mentes, vários corações, vários toques. Os livros só existem porque nós existimos e nós existimos porque os livros nos alimentam, nos moldam, nos mudam, nos salvam – e que bom que há esse mutualismo.


E se ao falarmos de livros, automaticamente falamos de pessoas, não podemos nos esquecer do principal ponto de reunião entre os dois: as livrarias físicas. Estas, constituem verdadeiros espaços de resistência, já que precisam persistir todos os dias para continuarem com as portas abertas. Muitas vezes pequenas e localizadas em bairros, elas precisam lutar contra o monopólio da Amazon, por exemplo, que vende exemplares a preços impraticáveis pelo mercado. É importante lembrarmos que a Amazon não é uma livraria, é apenas uma loja que vende livros, muito diferente das livrarias físicas, que são espaços de sinestesia, curadoria, aconchego e encontros – e quando falamos em encontros, é desde um bate-papo com os livreiros até eventos, como saraus, clubes de leitura e lançamentos com autógrafos.


A compra por um clique jamais chegará aos pés da jornada que é entrar em uma livraria, tocar e cheirar os livros, descobrir novos títulos e autores, tomar um café e trocar experiências. São nestes locais que o ciclo deste objeto – composto por tantas pessoas – se encerra de forma digna e bela: o livro passa pelas mãos do livreiro e é entregue ao leitor! Isso é amor, isso é poesia! E, eu não sei você, mas eu adoro brincar de ser poeta.


Referências:

ALVES JR, Dirceu. “Livrarias de rua desafiam grandes redes e movimentam bairros”. Disponível em: <https://vejasp.abril.com.br/cidades/livrarias-de-rua-resistencia>, acesso em 20/08/2021.

CARRIÓN, Jorge. “Manifesto contra a Amazon”. Disponível em: <https://outraspalavras.net/alemdamercadoria/manifesto-contra-a-amazon>, acesso em 20/08//2021.

GONÇALVES, Márcio S; GUIMARÃES, Thayz. “Um Livro pra Chamar de Meu: Afeto e Materialidade”. Disponível em: <https://portalintercom.org.br/anais/nacional2015/resumos/R10-1745-1.pdf>, acesso em 20/08/2021.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss Conciso. 1.ed. Rio de Janeiro: Moderna, 2011.


1 comentário

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1 Comment


essa escritora, Paloma Coitim, é contratada de alguma editora? Tem algum livro publicado?

Que narrativa, que delícia de matéria… Simplesmente admirável…

De uma riqueza gramatical sem igual! Parabéns aos envolvidos na construção deste conteúdo!

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