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Uma reflexão sobre a arte e a subjetividade que pode e deve florescer em todos nós

Arte, s. f. Lat. ars; artem. Conjunto de regras que ensinam a dizer ou fazer com acerto alguma coisa / [...] 4. Aplicação dos conhecimentos humanos à execução de um pensamento; execução prática de uma ideia / 5. Saber ou perícia em empregar os meios para conseguir um resultado / 6. Belas-Artes / 7. Habilidade / [...] / 10. Profissão, ofício [...]

(Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, Volume I, 2ª edição, Editora José Olympio)


Arte... São tantas as definições desta palavra tão curta, não é? É difícil escrever sobre arte, sobre subjetividade, sobre aprendizado e ensino, sobre as impressões que temos do mundo. Tudo depende das nossas experiências de vida, sentimentos, sensibilidade, conhecimentos... Já tentaram explicar a alguém o motivo pelo qual um quadro chama tanto a nossa atenção, por exemplo? Ou um filme? Ou um poema? Ou uma história em quadrinhos? Ainda que existam razões lógicas para tal, em muitas situações gostamos de uma obra pura e simplesmente porque ela fala com o nosso âmago, com nossa alma. É como conectar-se com nós mesmos. Uma imagem vale mais que mil palavras, afinal. Para ilustrar isso melhor, vou contar algo que aconteceu comigo: certa vez, fui a uma exposição de Kandinsky no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo (SP). Em uma das salas tive a oportunidade de ficar sozinho diante de um de seus quadros por vários minutos. Tratava-se de “Dois Ovais” (1919). Há artistas que, por meio do abstrato, dão vislumbres da pureza que existe nas linhas que formam a nossa realidade, trazendo à vista um mundo oculto e misterioso. É exatamente a impressão que tenho com Kandinsky. E diante desse seu quadro, sozinho, admirando aquelas manchas coloridas, eu estava vendo um mundo todo na minha frente e na minha cabeça. Naquele breve momento da minha vida, parecia que estava tudo em ordem. Vocês já tiveram essa sensação?


E quem aí já descobriu por mero acaso uma música diferente? Ou uma bela parede grafitada colorindo um cantinho cinza de uma cidade? Ou roupas bordadas com destreza em uma feirinha de artesanato? Não é maravilhoso encontrar a beleza da vida nessas pequenas coisas e ganhar ânimo para seguir adiante? Façam esse exercício: qual foi a última coisa relacionada à arte que vocês descobriram e que mudou um pouco o dia de vocês? Citarei duas que descobri nos últimos tempos. A primeira é a belíssima canção “Aquella hermosa nube” (texto de Sóror Juana Inés de la Cruz, musicalizado por José de Loayza y Agurto). Algo tão distante no tempo (século XVII) e ao mesmo tempo tão próximo. Fiquei encantado com sua leveza e doçura. Senti meu dia iluminar-se quando a ouvi pela primeira vez. E enquanto escrevia este texto que vocês estão lendo, fui apresentado a um artista de traço fluído, dinâmico e cheio de vida e ritmo: Carybé (1911-1997). Senti meu estilo de pintura conectar-se ao seu, talvez por ver algum tipo de semelhança entre os dois. E por falar em conexões, quem já foi ao teatro? Estar presencialmente em um deles e ver um balé, uma ópera, um concerto ou uma peça é eletrizante! Você sente a tensão da proximidade com o palco, o calor das pessoas, a atmosfera mudando conforme o momento da história... Toda a plateia conectada! Que sensação!


Mas mudando um pouco de foco, já vi pessoas comentando que a arte sempre precisa ser crítica. Vejamos “O Crime do Padre Amaro” (Eça de Queiroz), por exemplo, ou “Os Retirantes” (Portinari), ambas obras importantes, que falam da realidade do nosso mundo, abrindo nossos olhos para o que nos cerca, sejam os comportamentos do clero que Eça denuncia em seu romance ou o problema da seca, abordado no quadro de Portinari. Existe uma crítica nelas, e as obras transcenderam seu tempo por essa e outras razões. Porém, fico pensando se realmente toda obra, seja um quadro ou um livro, precisa ser tão crítica. Às vezes, uma obra apenas ressalta a beleza ao nosso redor, aquecendo nossos corações, e isso não é exatamente crítico. Ou é? E ambos são arte e têm sua relevância. Obras leves, pesadas, que nos fazem rir ou chorar... Todas podem nos ensinar alguma coisa e nos ajudar a nos encontrarmos. Meu quadro predileto, por exemplo, é “Antes do Banho”, de William-Adolphe Bouguereau (1900). Pesquisem-no, se puderem, e admirem a gentileza e naturalidade com que a jovem foi retratada, a vivacidade presente em seus olhos. Talvez não haja ali nenhuma mensagem oculta que nos faça refletir, mas a beleza que a pintura me transmite diz tudo. Admirando-a, sinto paz e alegria.


E falando nisso, no segundo semestre de 2021 comecei algo que jamais imaginei que faria na vida: dar aula de desenho para crianças. Duas, por enquanto. Diversas pessoas me falavam que eu levava jeito, mas eu não acreditava. E sabem de uma coisa? Estou muito satisfeito com os resultados. Ver a evolução dessas crianças é tão empolgante! Crianças são pura arte, eu diria: elas aprendem, observam, criam mundos em suas brincadeiras, expressam-se sem medo, são espíritos livres. Tento sempre imaginar que tipo de aula de artes o meu eu criancinha gostaria de ter tido... Sempre proponho aos meus alunos exercícios de aquecimento, brincadeiras, dobraduras, colagens, mistura de cores, apresento ferramentas que vão do compasso às curvas francesas, passando pelo giz pastel e pela caneta. Gosto de ver a reação deles diante de quadros, músicas, livros e objetos que mostro, saber o que pensam e sentem... Quando eu era criança, sentia falta de me apresentarem tudo isso nas aulas e me darem mais oportunidades de desenvolver um senso estético e crítico. E independente das profissões que essas crianças escolherem no futuro, a chama da arte e da criação ainda iluminará seus corações se for incentivada. Ou seja, a criatividade permanecerá viva. E criatividade serve para todos os trabalhos. Quem nunca precisou resolver um problema enorme e pensar em uma solução mirabolante? Arte, afinal, também significa “aplicação dos conhecimentos humanos à execução de um pensamento; execução prática de uma ideia”, conforme citei acima. Desta forma, que arte é mais arte: a que cria um filme/livro/quadro/foto ou a que cria uma solução para um problema? Ambas, eu diria. Um pouco de arte enobrece nossas almas, nos faz mais empáticos e sensíveis.


E se alguém questionar por que arte seria tão importante em suas vidas, tentem abordá-las com estas perguntas: você gosta de filmes, séries, livros? Gosta de culinária e alta gastronomia? Compra produtos que vêm em embalagens (seja um remédio ou um pacote de macarrão)? Mora em uma casa bonita? Gosta de automóveis? Acessa sites? Conseguiria viver sem essas coisas? Tudo isso foi concebido por mentes criativas: designers, arquitetos, pintores, escultores, chefs de cozinha, ilustradores. Arte não é só pintar, é também ajudar o nosso modo de vida a caminhar. O ser humano deixa sua marca no mundo com seus dotes criativos e artísticos. Cerâmicas gregas, escrita cuneiforme, pinturas rupestres, mosaicos bizantinos, esculturas astecas, pontas de flecha pré-históricas, poemas, xilogravuras, telas... Tudo que mantém viva a nossa memória como espécie é fruto de arte, seja com fins estéticos ou práticos. Em outras palavras, a arte, sempre tão objetiva e subjetiva, é uma das coisas que faz da nossa espécie o que ela é.


Quando partimos deste mundo, são apenas as nossas memórias que deixamos nos outros que nos mantêm vivos. A memória do artista é o seu trabalho, e enquanto seu trabalho for preservado, ainda que esse artista seja esquecido, a sua memória continuará viva. Um testemunho do que ele pensou, viveu e sentiu. E em um momento tão estranho como o que estamos vivendo, um pouco da beleza que pode florescer em nossos corações ao nos depararmos com uma obra marcante (ou produzirmos uma) é algo que tem se mostrado cada vez mais essencial. Portanto, sejam arte, vivam arte, produzam arte, incentivem a arte nas crianças para que ela não morra com os adultos, incentivem a arte nos adultos para que eles possam semeá-la nas crianças!


Nosso mundo é feito de mentes criativas. Pensemos nisto.

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