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Ninguém ficará sozinho para sofrer a perda dos demais

As notícias sobre o conflito entre israelenses e palestinos tendem a apresentar-nos um conflito equitativo. Seriam dois povos em pé de igualdade combativa, cada um lutando por seu quinhão de solo. Nunca se chega a entender por que aquela gente não alcança um entendimento. Afinal, são todos semitas (descendentes de Sem) e, ainda que uns creiam em Iavé ou Adonai e outros em Alá, no fundo se trata do mesmo Deus único, não?

Por vezes essas notícias pendem para o lado dos israelenses, gente democrática e civilizada, vítima dos horrores nazistas, que hoje se vê por vezes ameaçada pelo terrorismo jihadista. Que querem afinal esses misóginos fanáticos islâmicos?

As notícias quase nos convencem, não fossem as terríveis cenas de bombardeios sobre bairros civis palestinos, destruindo casas e prédios, matando mulheres, velhos e crianças, como vimos recentemente em Gaza, não fossem as cenas de jovens e crianças palestinas respondendo com pedras às investidas de tanques israelenses, não fossem as barreiras e os muros.

Mas aquilo tudo se passa num mundo distante, e temos dificuldade em opinar. Tanto mais que o cinema já nos mostrou repetidas vezes o sofrimento inolvidável do povo judeu nos guetos e campos de concentração. Receamos ser chamados de antissemitas, sem nos darmos muitas vezes conta de que o somos também quando identificamos forçosamente um árabe com um terrorista.

Depois, é preciso distinguir antissemitismo de sionismo, esta sim uma ideologia restritiva, colonialista. Não devemos ser antissemitas, claro, porque, sendo humanos, sendo humanistas, não devemos desprezar nenhuma etnia, porque não devemos, portanto, desprezar os povos indígenas, ou afrodescendentes, ou nipônicos, ou eslavos, etc.

Quanto ao sionismo, as coisas precisam ser consideradas diferentemente. Nasceu o sionismo no final do século XIX a partir de dois pressupostos: (1) os judeus da diáspora jamais se adaptariam às comunidades não judias onde se encontrassem; e (2) os judeus necessitavam de um “lar” para si, um “Estado judeu”[1].

No final da Primeira Guerra Mundial, com a derrota do império otomano, que estivera ao lado da Alemanha na guerra, a Palestina passa às mãos do Reino Unido, que a manterá oficialmente sob seu Mandato de 1922 a 1948, quando então se criará o Estado de Israel, na esteira da Segunda Guerra, como uma espécie de compensação pelo sofrimento dos judeus nas mãos dos nazistas.

O plano original era dividir a Palestina em dois estados, um para os judeus e outro para os palestinos. Porém, sendo estes mais de 70% da população local, aquilo não lhes pareceu uma boa ideia, tanto mais que haviam feito um acordo com o Reino Unido de participar na Primeira Guerra contra os otomanos, inimigos dos britânicos, com a promessa de que teriam sua liberdade e independência, e isso não incluía ter de compartilhar suas terras com estrangeiros [2].

Said observa o seguinte [3]:

Apesar da contínua chegada na Palestina de colonos judeus depois de 1882, é importante perceber que até às poucas semanas que imediatamente precederam o estabelecimento de Israel, na primavera de 1948, a maioria árabe era expressiva. Por exemplo, a população judia em 1931 era 174.606 contra um total de 1.033.314; em 1936, o número de judeus subiu para 384.078 e o total para 1.366.692; em 1946, havia 608.225 judeus num total populacional de 1.912.112 (p. 11).

A despeito da alegação feita pelos judeus de que voltavam para a sua terra prometida, para o seu Sião, a Palestina já havia se tornado predominantemente árabe e um país islâmico por volta do final do século VII. É perfeitamente plausível que a maioria das pessoas que ali viviam se converteram ao Islã, como, aliás, foi o caso, além da Península Arábica, da Ásia Menor, do norte da África e de considerável parte da Península Ibérica [4]. E isso por certo incluiu tanto cristãos quanto judeus. Assim, a declaração sionista de “uma terra sem povo para um povo sem terra”, ao menos no que diz respeito a “uma terra sem povo”, definitivamente não se sustentava.

A resistência palestina a Israel, ainda que tenha contado com o apoio de outras nações árabes, encontrou a contraofensiva bem armada do inimigo, que não apenas ocupou o espaço para si determinado, como também avançou sobre o território destinado ao Estado Palestino. E isso com o apoio de nações ditas civilizadas e democráticas, como foi e tem sido o caso dos Estados Unidos, que têm sempre se mostrado fiéis aliados de Israel, inclusive recentemente, quando dos ataques à Gaza, recusando-se em três vezes sucessivas a convalidar o cessar-fogo.

Se excetuarmos a Transjordânia, hoje pertencente à Jordânia, temos a Palestina divida em Israel, Cisjordânia e Gaza. Estas últimas pertenceriam aos palestinos, mas a primeira é em grande parte ocupada por Israel, ao passo que Gaza, embora não o seja, constitui-se hoje numa verdadeira prisão a céu aberto, já que seus residentes não podem deixá-la e dependem em tudo (água, alimentos, energia, etc.) diretamente de Israel.

Não é incorreto dizer que os palestinos têm dois governos: a Autoridade Nacional Palestina, com sede em Ramala, na Cisjordânia, e o Hamas, que controla Gaza [5]. Se a Autoridade Nacional Palestina, apesar de alguns avanços, anda a passos muito lentos, mostrando-se muitas vezes débil diante das investidas de Israel – cujo objetivo tem se revelado anexar mais e mais territórios palestinos –, o Hamas, ao rejeitar a própria existência de Israel, parece buscar o impossível diante das circunstâncias.

Para Jean-Paul Chagnollaud, presidente do IREMMO (Institut de Recherche et d'Études Méditerranée Moyen-Orient), a solução de dois estados ainda é viável. Na verdade, pensa ser ela atualmente a única solução possível. “Essa solução”, escreve,

passa pela separação entre o povo palestino e o povo israelense. Sem esse sistema de separação, a coisa não vai funcionar. A anexação de territórios da Cisjordânia por Israel [as famosas colônias israelenses na Cisjordânia] reforça a fórmula de um único Estado, mas isso não é de modo algum uma solução. Muito pelo contrário. A política de anexação apenas fragmentará mais os territórios palestinos. Será Gaza de um lado, Jerusalém Oriental de outro, depois pequenos pedaços de território controlados por uma Autoridade Palestina fantasma e, por fim, mais os territórios anexados. Essa fórmula de um só Estado levará à destruição da democracia em Israel e sua substituição por um sistema de apartheid [6].

Talvez isso seja mais fácil de dizer do que fazer. Em todo caso, a saída de Netanyahu do poder sinaliza um ganho, já que Bibi, como é conhecido, foi um dos maiores defensores da lei básica que, em 2018, definiu Israel como “Estado-nação do povo judeu” e sempre fez pouco da questão palestina.

Com o novo premier, Naftali Bennett, não há muita esperança de avanço nas negociações com os palestinos. Mas as recentes mudanças no parlamento israelense (knesset), com a saída dos partidos religiosos ultraortodoxos e a entrada das legendas de centro, de esquerda e árabe, podem impactar significativamente a vida dos israelenses, em especial a dos grupos minoritários. Aliás, a inclusão do partido islâmico no seio do governo já representa uma quebra de paradigma.

Voltando ao sofrimento dos palestinos em Gaza, não posso concluir este texto sem mencionar o que me disse acerca dos bombardeios àquela cidade a minha amiga palestina Rajaa Abu Jasser, residente em Gaza, professora e mãe de cinco crianças:

De noite, quando começavam a bombardear a cidade, meu marido, meus filhos e eu íamos todos para a sala. Tínhamos decidido que, se era para morrer, morreríamos ali, todos juntos. Ninguém ficaria para sofrer sozinho a perda dos demais.

[1] Para conhecer as propostas sionistas em seus inícios, ler: HERZL, Theodor. The Jewish State. Nova York: Dover Publications, 1988 (publicado originariamente em alemão, Der Judenstaat, em 1896, em Viena). Ver: https://www.gutenberg.org/files/25282/25282-h/25282-h.htm, acesso 14-06-2021. [2] Esse acordo não foi feito apenas com os palestinos. Os britânicos envolveram nele todo o mundo árabe. Só não revelaram que tinham também feito um acordo com os franceses para repartirem entre si parte do Oriente Médio, ficando depois da guerra os britânicos com a Palestina e o Iraque, e a França com a Síria e o Líbano. Os britânicos fizeram ainda a promessa aos sionistas de aceitarem a Declaração de Balfour. Para detalhes, ver: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-56885838, acesso 14-06-2021. [3] SAID, Edward W. The question of Palestine. Nova York: Vintage Books, 1980. Há tradução para o português. [4] “Um império construído em nome de Allah”, in: História do homem nos últimos dois milhões de anos. Lisboa: Seleções do Reader’s Digest, 1975, pp. 148-157. [5] Em janeiro de 2006, o Hamas venceu as eleições na Palestina, conquistando 76 dos 132 assentos no Parlamento Palestino, enquanto o rival Fatah conseguiu 43. Depois da Batalha de Gaza, em junho de 2007, o Hamas perdeu suas posições na Autoridade Palestina na Cisjordânia, sendo substituído no Parlamento por integrantes do Fatah e independentes. Mas o Hamas manteve o controle de Gaza, expulsando o Fatah da região. A posição de organização terrorista atribuída ao Hamas é controversa. [6] “Entretien avec Jean-Paul Chagnollaud – Les enjeux juridiques de l’annexion de la Cisjordanie par Israël”, in: https://www.lesclesdumoyenorient.com/Entretien-avec-Jean-Paul-Chagnollaud-Les-enjeux-juridiques-de-l-annexion-de-la.html, acesso em 14-06-2021.

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