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Falas de Coragem: Wagner de Azevedo Pedroso e a história vista de baixo

Atualizado: 22 de fev. de 2022

O racismo é uma das estruturas que sustentam a sociedade brasileira. Até hoje, a base que fundamenta relações sociais, econômicas e de trabalho é reflexo de um sistema para o qual, em nosso país, não houve reparação histórica.


Nesse contexto, livros que lançam luz sobre nossa história a partir de diferentes ângulos, buscando as vozes, faces e histórias em geral esquecidas ou negligenciadas, são um instrumento de luta. São essas as obras que nos permitem compreender o que vivemos hoje e mostram como o presente está intrinsecamente ligado a uma construção que começou séculos atrás.


Com uma abordagem que vai além das narrativas convencionais, explorando a complexidade de relações da época, Wagner de Azevedo Pedroso reconta um capítulo do passado escravocrata do Rio Grande do Sul, mais especificamente da atual de cidade de Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre.


Em “Nazário e um plano de rebelião escrava na Aldeia dos Anjos”, o autor se dedica a explorar as implicações de um sistema de opressão cuja violência não era só física, mas também psicológica, já que os senhores tinham o poder de romper laços sociais e familiares das pessoas escravizadas. Ao reunir fragmentos das vidas de algumas dessas pessoas, Wagner mergulha na trama complexa de trocas, relações e movimentações da época.


Conversamos com o autor sobre o processo de escrita do livro, referências sobre o assunto e a importância de olhar para o passado para modificar o presente – para conhecer as múltiplas facetas de nossa história e ter coragem de contá-las.




1. O que as pessoas encontram em “Nazário e um plano de rebelião escrava na Aldeia dos Anjos”?


No livro as pessoas encontram a análise de tentativa de rebelião de escravizados, ocorrida no ano de 1863, na Freguesia da Aldeia de Nossa Senhora dos Anjos (atualmente correspondente ao território do município de Gravataí e arredores). Porém, mais do que uma tentativa de rebelião escrava, o livro apresenta as pessoas que participaram desse fato histórico, destacando seu cotidiano e com quem se relacionavam – ou seja, analisa as relações sociais e familiares dos senhores, mas principalmente dos escravizados. Observando o contexto no qual os escravizados viviam, o livro sugere possibilidades explicativas para as “ações e reações” dessas pessoas dentro do sistema escravista da localidade naquele momento, próximo a 1863. Nessa análise, destacam-se as modificações ocorriam no período, principalmente relacionadas às consequências da Lei Euzébio de Queiroz (Fim do Tráfico Negreiro, 1850) no cotidiano da Aldeia dos Anjos. Entre essas mudanças, o livro enfatiza as alterações nas formas de dominação senhorial, como o aumento da rigidez dos senhores como seus escravizados, e como essas transformações afetaram o modo de vida dos escravizados – em suas possibilidades de ação e suas conquistas diárias ou, usando os termos de Thompson, seus “costumes em comum”. Por fim, o leitor encontra ainda alguns “fragmentos” da vida de pessoas escravizadas, principalmente do que aconteceu com elas após o fim do plano de rebelião escrava.



2. O que te moveu a escrever o livro?


O livro é fruto de minha dissertação de mestrado, e sempre fui apaixonado por pesquisa – adorava ir ao arquivo e ficar analisando as documentações. Mas, principalmente, Escrevi para contar a história das pessoas que não estavam nas classes sociais mais altas, para contar a história das pessoas que formam a maioria da população, mas que não estão em destaque nas documentações. Queria contar “a história vista de baixo”. Em minha dissertação, não consegui aprofundar esta história vista de baixo, mas a vontade continuou latente em minha mente. A vontade de apresentar “fragmentos” das histórias de vidas desses escravizados envolvidos no plano de rebelião e destacar suas relações sociais e familiares (amigos, conhecidos, pais, mães, irmãos…) foi o que me motivou a escrever este livro – ou seja, a ideia de apresentar a história das pessoas oprimidas pelo sistema escravista da época.



3. Quais foram tuas leituras e referências no processo? Indicações para quem gostaria de seguir estudando a respeito?


Muitas foram as leituras para a elaboração do livro. Algumas são importantíssimas como norteadores de minha análise (teórica) e outras são fundamentais para a compreensão das rebeliões escravas. Entre as leituras teóricas, indico:

· “Costumes em Comum”, E.P. Thompson

· “A escrita da História”, Peter Burke (org.)

· “Jogos de Escalas”, Jacques Revel (org.)


Acrescendo ainda alguns livros sobre escravidão, mas não necessariamente sobre rebeliões, como:

· “A terra prometida: o mundo que os escravos criaram”, Eugene Genovese

· “Visões da Liberdade”, Sidney Chalhoub;

· “Negociação e Conflito”, João José Reis e Eduardo Silva (um livro excelente para quem está no início dos estudos sobre escravidão)


Sobre rebeliões escravas, destaco quatro livros:

· “A conquista da liberdade: libertos em Campinas na segunda metade do século XIX”, Regina Célia Lima Xavier

· “Rebeldia e Resistência: as Revoltas Escravas na Província de Minas Gerais (1831-1840)”, dissertação de mestrado de Marcos Ferreira de Andrade

· “Coroas de Glória, Lágrimas de Sangue”, Emilia Viotti da Costa

· “Rebelião Escrava no Brasil”, João José Reis (referência fundamental para os estudos sobre rebelião escrava)


Os dois últimos livros foram fundamentais para minha forma de análise devido à sua forma de escrita sobre rebeliões, cada um com o seu enfoque.



4. O livro revisita um dos capítulos do passado escravocrata do Rio Grande do Sul. Por que é tão urgente que encaremos nossa história?


É importante destacar que existem muitos estudos, principalmente entre as décadas de 1980 e 1990, que já trazem outras visões sobre a escravidão – como algo muito mais complexo do que somente a repressão física. Muitas outras relações de força faziam parte do sistema escravista, e meu livro ajuda a compreender essa complexidade do sistema escravista em uma região específica: a Freguesia da Aldeia de Nossa Senhora dos Anjos. Dentro dessa complexidade, temos as diversas relações de dominação aplicadas pelos senhores dos escravizados, que não necessariamente estavam vinculadas à violência física. Muitas vezes, a violência era psicológica, uma vez que os senhores poderiam alterar ou romper as relações sociais e familiares dos escravizados ou mesmo ameaçar sua mobilidade pela região. Para finalizar, o livro ajuda a desmistificar a ideia de que a escravidão não era tão forte na Província de São Pedro (Rio Grande do Sul).



5. O Brasil é um país construído em bases racistas. Pra ti, como livros (como o teu) podem contribuir para o debate e somar na luta antirracista?


Ao apresentar o protagonismo do “negro” (escravizado, liberto ou livre), os livros que trazem ao grande público uma visão sobre a escravidão mais ampla e complexa do que estamos acostumados a ver ajudam a demonstrar como essas pessoas foram fundamentais – com seu trabalho, sua cultura e sua luta – para a construção da nação brasileira. As histórias desse tipo de livro – no caso do meu livro, da luta dos escravizados por sua liberdade (através do plano de rebelião) – mostram o protagonismo dos escravizados e nos ajudam a percebê-los como pessoas que agiram e reagiram às situações que foram se sucedendo ao longo de sua vida. Ao colocar a pessoa escravizada como protagonista e não somente como alguém que reage ao sistema escravista, acredito que essa perspectiva contribua para aprofundar a compreensão do próprio debate da luta antirracista hoje, principalmente ao destacar como o sistema escravista compõe a base estrutural da discriminação racial no Brasil. Muitas das questões relacionadas ao racismo ainda hoje são reflexos das antigas relações estabelecidas durante o período da escravidão no Brasil Colonial e Imperial.


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